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PEN registra 34 mil casos de proibição de livros em cinco anos

Relatório anual diz que chatbots passaram a acelerar listas de obras alvo de censura, com forte concentração no Texas e na Flórida.

· 7 min de leitura
PEN registra 34 mil casos de proibição de livros em cinco anos
Foto: Eduardo Loureiro / Flickr (CC BY-SA 2.0) (ilustrativa)

Em poucas linhas

  • Texas passou a liderar as remoções de livros, segundo a PEN America, com mais de 8.100 casos.
  • A entidade afirma que chatbots de IA estão sendo usados para montar listas de títulos a retirar das escolas.
  • O relatório também mostra aumento no número de distritos que adotaram proibições e alerta para subnotificação.

A PEN America divulgou nesta quarta-feira um relatório anual que diz que as proibições de livros nos Estados Unidos chegaram a um patamar sem precedentes, com concentração no Texas e na Flórida e uso crescente de inteligência artificial para acelerar remoções em escolas.

O que o novo relatório mostra

Publicado em coincidência com a Semana dos Livros Proibidos, o levantamento da entidade afirma que ferramentas de IA começaram a ser usadas para vasculhar catálogos e montar listas de obras consideradas inadequadas. Segundo a PEN, esse processo ganhou velocidade porque os sistemas trabalham com palavras-chave e buscas na web, sem considerar nuances, contexto ou intenção.

A organização diz que os chatbots passam a tratar como suspeitos livros já barrados em outros distritos ou títulos que apenas mencionam temas como violência ou racismo. Na avaliação da PEN, isso amplia a censura porque transforma uma prática localizada em um mecanismo mais automatizado e menos criterioso.

Philomena Polefrone, gerente sênior do programa Freedom to Read da PEN America, disse em comunicado que muitos casos só aparecem depois de pedidos de acesso a informações públicas feitos por grupos locais. Ela afirmou que livros pagos pelos contribuintes estão sendo retirados das prateleiras sem que a comunidade saiba imediatamente.

Texas concentra o maior volume de remoções

O Texas aparece como o estado com mais de 8.100 remoções, número que supera com folga o total de proibições registrado no conjunto dos estados americanos no ciclo anterior. A PEN relaciona esse avanço à SB13, lei que, segundo a entidade, se aplica a amplas categorias de livros em bibliotecas escolares.

Na leitura da organização, a nova legislação ajuda a explicar por que o estado ultrapassou a Flórida como principal foco das proibições no país. Em vez de decisões pontuais, o relatório vê uma estrutura mais ampla, sustentada por regras estaduais e pela busca de listas geradas automaticamente para obras que podem ser classificadas como obscenas ou profanas.

O material também aponta que escolas do Texas e de outros estados têm usado cada vez mais chatbots para cumprir esse tipo de exigência. Em registros públicos reunidos pelo Texas Freedom to Read Project e compartilhados com a PEN, as ferramentas sugerem a remoção de títulos que estão em zona cinzenta, inclusive por terem sido proibidos em outros distritos ou por mencionar violência e racismo.

Quais livros aparecem com mais frequência

Como nos anos anteriores, os títulos mais atingidos são, em sua maioria, romances para jovens adultos que abordam raça, experiências LGBTQIA+ e sexo. Entre os livros mais removidos no período estão Sold, de Patricia McCormick, seguido por Speak, de Laurie Halse Anderson, e Crank, de Ellen Hopkins.

Os três títulos aparecem na frente do ranking do ano analisado pela PEN, com 25, 23 e 22 distritos escolares, respectivamente. A lista também inclui autores já conhecidos do debate sobre censura literária, como John Green, Margaret Atwood e Sarah J. Maas.

Mais de 4.500 dos títulos proibidos individualmente no ano passado ainda não haviam sido catalogados pela entidade. Segundo a PEN, esse foi o maior número de novos livros adicionados ao índice em um único ano, e ele inclui desde Jane Eyre, de Charlotte Brontë, até romances contemporâneos como Lessons in Chemistry, de Bonnie Garmus.

Mangás entram com mais força na mira

Outro ponto destacado pela PEN é o aumento do escrutínio sobre mangás, formato que se consolidou no mercado americano e virou favorito entre leitores mais jovens. De acordo com a organização, distritos escolares passaram a sinalizar séries inteiras para retirada, em alguns casos afetando mais de 20 ou 50 títulos diferentes de uma vez.

Entre os autores que aparecem com mais frequência nas listas estão Atsushi Ohkubo, Hajime Isayama e Rumiko Takahashi, ligados a séries conhecidas como Soul Eater, Fire Force, Attack on Titan e Inuyasha. Para a PEN, esse movimento mostra que a pressão já alcança formatos populares que antes não estavam entre os alvos mais comuns de proibição.

Kasey Meehan, diretora do programa Freedom to Read da PEN America, afirmou em comunicado que a queda da leitura por prazer torna especialmente grave a retirada de títulos envolventes das escolas. Segundo ela, o papel das instituições deveria ser aproximar crianças da leitura, e não afastá-las de histórias que ampliam imaginação, compreensão e empatia.

Mais distritos aderiram às proibições

O relatório mostra que o movimento saiu do núcleo mais conhecido de estados com leis restritivas e alcançou novos sistemas escolares. No último ano, 114 distritos diferentes adotaram proibições de livros, acima dos 87 registrados no período anterior.

Mesmo com o aumento, a PEN afirma que seus números são menores do que a realidade. A organização diz que muitos casos não são denunciados formalmente e ficam difíceis de comprovar sem transparência por parte dos distritos escolares, o que ajuda a esconder a dimensão real das remoções.

Segundo o relatório, a falta de registros públicos afeta até os estados mais monitorados, como Flórida e Texas. Philomena Polefrone disse que milhares desses casos só entram nas contas por causa de pedidos de acesso a informações públicas feitos por grupos como o Florida Freedom to Read e o Texas Freedom to Read.

Como a PEN acompanha a escalada da censura

Com os dados de 2025, 26, a PEN já registrou 34 mil casos de proibição de livros desde que começou a documentar a prática, há cinco anos. A entidade afirma que a pressão combinada de legislações estaduais e grupos organizados transformou uma ação local em uma campanha nacional.

Esse avanço se conecta ao histórico recente da censura literária nos Estados Unidos. Em material de anos anteriores, a própria PEN descreveu um movimento que ganhou força em estados como Flórida, Texas e Utah, impulsionado por leis que permitem a retirada de obras consideradas inadequadas e por disputas políticas sobre currículo escolar.

Relatórios anteriores da entidade também mostravam livros de autores como Gabriel García Márquez, Isabel Allende, Toni Morrison e Stephen King na mira das restrições, além de apontar bibliotecas escolares como alvos centrais de campanhas de intimidação. O novo levantamento sugere que o repertório de obras atingidas continua se ampliando, enquanto o mecanismo de remoção fica mais rápido e menos visível.

Onde ler o relatório e o que vem depois

O relatório integral está disponível em inglês no site da PEN America. A publicação é usada pela entidade para atualizar o histórico de casos e observar como a censura se adapta às regras estaduais e às ferramentas digitais usadas por escolas.

Na prática, o documento ajuda a mapear como catálogos escolares estão sendo esvaziados sem discussão pública ampla. Para a PEN, o ponto central não é apenas o número de títulos retirados, mas o fato de que a decisão passa a depender de listas automáticas e de pedidos de acesso a dados para vir à tona.

A nova edição também reforça que a disputa não se limita a livros específicos, mas ao acesso de estudantes a acervos variados. Quando uma série inteira ou um conjunto de obras é retirado de circulação, o impacto recai com mais força sobre jovens que dependem da biblioteca escolar como principal porta de entrada para novas leituras.

Perguntas frequentes

Onde o relatório completo está disponível? Em inglês, no site da PEN America.

Quais estados concentram mais remoções? O relatório aponta Texas e Flórida como os principais focos.

Por que a PEN cita inteligência artificial? Porque, segundo a entidade, chatbots estão ajudando a gerar listas de livros a remover com base em buscas por palavras-chave e na web.

O número divulgado pela PEN é o total real de proibições? Não necessariamente, porque a organização afirma que parte dos casos não é denunciada e não aparece em registros públicos.

Fontes

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